A primeira expedição a chegar em São Francisco do Sul foi supostamente formada por navegadores franceses. A expedição de Paulmier de Gonneville, a bordo do L'Espoir, tinha planos de chegar às Índias, visando os produtos orientais. Imprevistos durante a viagem fizeram com que a embarcação chegasse em 1504, à ilha de São Francisco do Sul, então uma terra desconhecida, habitada por índios.
Durante todo o século 16, o sul do Brasil ficou esquecido por não ser atrativo à economia extrativa da coroa portuguesa. Temendo a invasão espanhola, foi que se estimulou o povoamento do Sul. Foi então fundada a Vila de Nossa Senhora da Graça de São Francisco Xavier do Sul, no século 17, provavelmente em 1658.
“São Vicente (e São Paulo), ao Norte, e o estuário do Prata, ao Sul, agiram no período colonial como dois focos importantes de colonização e povoamento, relegando a região dos atuais Estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul à condição de zona de trânsito, espaço a ser vencido. O povoamento de Santa Catarina iniciou-se no século XVII, sob a influência desses dois focos, quando pequenos grupos de colonizadores partiram de São Vicente descendo a costa e ocupando alguns pontos do litoral.
Aos portugueses importava anteciparem-se aos seus vizinhos e rivais castelhanos na posse daquela terra de ninguém, situada entre a capitania de São Vicente e o rio da Prata. A Coroa Portuguesa, portanto, empenhou-se desde o século XVII na ocupação efetiva da costa sul brasileira, cabendo esse movimento colonizador efetivamente aos paulistas e vicentinos”. (CHUVA & PESSOA, 1995:54)
O crescimento de São Francisco do Sul sempre foi lento, devido à escassez de recursos. Segundo CHUVA & PESSOA (1995:57), a região Sul tinha um papel subsidiário de apoio às investidas portuguesas na região platina, muitas vezes drenando os já escassos recursos alimentares (farinha de mandioca) e de homens para suas tropas, freqüentemente em guerras no Sul.
Nos anos 20 do século 18, registrou-se a notável a presença do ouvidor da capitania de São Paulo, Rafael Pires Pardinho, o qual introduziu mudanças administrativas e judiciárias, reorganizando a vida civil da Vila. Em 1847, foi elevada à categoria de cidade, mas ainda mantém uma economia de subsistência.
Já no final do século 19, surgiram mudanças na economia do município. A ocupação da região por imigrantes alemães, italianos e poloneses criou as condições para o desenvolvimento da economia portuária, base da história da cidade. A concessão de verbas estaduais para obras no cais e a construção de grandes armazéns de estocagem, como a empresa Hoepcke, fomentam as atividades portuárias, abrindo perspectivas à comercialização de madeira e erva-mate. Esta prosperidade refletiu-se também na arquitetura do casario histórico.
Grande parte das casas de tipologia luso-brasileira foi substituída por modelos do ecletismo europeu, em especial os teuto-brasileiros.
Por volta de 1940, há um declínio no ciclo da erva-mate e da madeira, devido ao esgotamento das reservas do estado, ao incentivo governamental a outros portos, e ao próprio período de recessão em decorrência das duas grandes guerras. Somente a partir da década de 70 é que a cidade volta a ter uma certa estabilidade econômica, quando o porto é classificado como terminal graneleiro, e são instaladas em suas proximidades a Cia. Catarinense de Armazenamento Cocar e a Cia. de Beneficiamento de Soja Ceval. Também nessa mesma época, é instalado o terminal marítimo da Petrobras, na praia da Enseada.
Nos últimos anos, em especial, depois da instalação do Museu Nacional do Mar, ampliou-se a importância da atividade turística para qual a cidade é excepcionalmente dotada. A proximidade com Joinville, Curitiba, Blumenau, Itajaí e outros cidades mais densas e industrializadas proporciona a São Francisco do Sul, um grande potencial de lazer.
O CENTRO HISTÓRICO
O sítio tombado apresenta uma malha reticulada regular, mas não ortogonalmente em xadrez, como nas áreas mais recentes. A conformação entre morros e mar deu ao sítio uma centralidade ao núcleo urbano que ainda hoje se faz presente. Isto é reforçado pela presença do porto, desde sempre, a principal atividade econômica da cidade, considerado um dos cinco melhores portos naturais do Brasil.
“Embora realizada de modo incipiente até o século XIX, a vocação portuária do sítio não só justifica a existência do núcleo e as transformações do suporte natural inerentes a sua existência, como determina também a eleição da orla como fator preponderante de ordenação. A rua da Praia, juntamente com a praça e os caminhos para o interior, que tangenciam o relevo envolvente, formam a estrutura-matriz, representação sincrônica de um projeto de habitat. Em razão da ausência de investimentos no assentamento, a estrutura adquire consistência pelo depósito residual das atividades desenvolvidas com lentidão do cotidiano(...)
É sobre a diretriz da orla que emergem com maior clareza os vestígios da lenta construção do quadro de vida material em São Francisco. Os lotes, nesse trecho, desenvolvem-se ao longo da pequena enseada, fechando praticamente o vazio entre os morros. (CHUVA & PESSOA 1995:61)
O centro histórico de São Francisco do Sul continua a exercer posição de “centralidade” na cidade. Nele concentram-se os centros cívico e religioso; além do comércio e prestação de serviços, que se localizam também num entorno imediato. A integridade do centro talvez tenha ocorrido pela escolha do sítio. Sua localização entre morros e mar permite uma posição de resguardo e ao mesmo tempo de destaque para a cidade. Sua relação com o mar e fatores geográficos favoráveis garante a presença do porto, a principal atividade econômica da cidade, nas proximidades do centro. Assim, termina-se por legitimar a importância deste sítio histórico no contexto urbano e econômico para a região.
Embora tenha sido a mais meridional das povoações portuguesas, a razão pela qual São Francisco do Sul foi tombada pelo IPHAN não se deve ao fato da cidade ter participado de 'acontecimentos notáveis', mas por tratar-se de um documento da história urbana do país, dentro do contexto histórico de expansão das fronteiras meridionais. (CHUVA & PESSOA, 1995:53).
“Não percebemos na cidade aqueles prédios que guardam em si as características de antigüidade e excepcionalidade que, até bem pouco tempo, a instituição vinha contemplando com o tombamento. Essas características conferem caráter monumental às construções, em razão de virtudes próprias às mesmas, distinguindo-as das outras, tradicionalmente chamadas de arquitetura menor.
Por outro lado, temos em São Francisco do Sul, no conjunto dessa arquitetura menor, grande diversidade de elementos. Essa falta de homogeneidade não é prejudicial à eleição de São Francisco do Sul como documento histórico a ser preservado; na verdade, ela se apresenta como instrumental necessário à análise, a exemplo do que foi dito anteriormente.” (CHUVA & PESSOA, 1995:66)
A estagnação econômica ocorrida a partir da metade do século 20 impediu que houvesse um grande crescimento na cidade, evitando uma descaracterização completa, com processos de verticalização. Neste ponto é importante salientar a importância das leis municipais de preservação de 1981, e posteriormente, do IPHAN, a partir de 1987, com o tombamento federal.