Denominação
Segundo o estudioso Kelvin Duarte, no Brasil Bote é um termo genérico
que normalmente designa uma embarcação de pequenas proporções
e de boca aberta. Entretanto, em diversas regiões litorâneas
encontramos “botes” de diferentes características e
desenhos. Provavelmente os botes são embarcações
introduzidas mais recentemente no Brasil, a partir do século XIX,
quando a influência inglesa já era forte o suficiente para
influenciar, com os seus “boats”, a designação
de várias embarcações criadas ou introduzidas no
país neste período. Na língua inglesa, o termo boat
também é impreciso e designa grande variedade de barcos
diferentes. Segundo a Enciclopédia Boating, os botes têm
sido parte da vida humana desde a primeira aventura selvagem sobre um
tronco para cruzar as águas. No Brasil e em Portugal não
encontramos esta designação nos barcos mais antigos. Os
termos genéricos encontrados nos países de cultura lusa,
normalmente restrigem-se a barcas, barcos, bateiras e lanchas.
Localização
Hoje em dia, entretanto, botes são embarcações encontradas
em praticamente todo o litoral brasileiro, com ênfase para o Ceará,
Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina.
Características dos botes brasileiros
É difícil encontrar relação entre eles. Nos
maiores, o tamanho gira em torno dos 10m, subindo para 12m ou mais no
nordeste. A boca varia de 3 a 3,5m, chegando a 4m nos botes maiores. Na
foz do Rio São Francisco existe pequena embarcação
que lembra as bateiras do sul chamada de “bote” movida a remo
e vela. O bote do Ceará é o único a apresentar convés;
todos os demais são de boca aberta. As proas diferem muito: apresentam-se
na vertical nos botes do sul, originários da Lagoa dos Patos; inclinadas
ou levemente curvas nos botes do Ceará e de Santa Catarina. As
popas também variam: imitando as das canoas no bote do sul, de
“dupla proa” herdada das baleeiras em Santa Catarina, de “popa
torada” no Ceará e na região sudeste. A propulsão
é variada: vela latina e velas de jangada no bote do Ceará,
motorizados no sul e no sudeste, onde somente os botes mais antigos ainda
trazem os encaixes de mastros que recebiam velas quadradas armadas com
espichas. Os botes de Santa Catarina são mais coloridos dos que
os do Rio Grande; os do Ceará na maioria das vezes possuem cascos
pintados uniformemente. Portanto, os botes brasileiros apresentam características
diversas, inexistindo padrões definidos que os classifiquem em
tipologias específicas. Pode-se dizer que esta denominação
provavelmente localiza mais o período de surgimento destes barcos
do que elementos comuns em sua configuração, uso ou construção.
Bote do Ceará.
Ocorrência:
O bote do Ceará é uma embarcação criada para
possibilitar ao pescador daquela região, maiores facilidades de
navegação, proteção e capacidade de carga
dos que as tradicionais jangadas oferecem. Os botes cearenses espalham-se
por toda a costa da região nordestina, de Sergipe ao Maranhão.
Características:
Apresentam mastreação variada, destacando-se a vela latina
e a vela de jangada. O casco pode ser de borda alta ou baixa mas em qualquer
caso é executado com pranchas estreitas que permitem desenhos dinâmicos,
formando cascos de ótima hidrodinâmica. O bote de bordas
baixas aproxima-se do formato de pranchas largas, quase tocando o mar
nas laterais. Ancorados confundem-se ao longe com a silhueta das jangadas
de tábuas. Existem várias adaptações regionais
entre as quais o “botinho”, embarcação de pequenas
dimensões existente na região de Aracati CE. Deve-se notar
no Bote do Ceará equipado com vela latina, o mastro curto, estaiado,
e a verga de grandes dimensões, característica que lhe valeu
o apelido de “rabo de galo”. Estas vergas, maiores do que
o comprimento dos barcos são formadas ( como os mastros das jangadas)
pela emenda de diversos segmentos de diferentes madeiras. As espécies
utilizadas nas extremidades são mais flexíveis dos que as
do centro da verga, permitindo a curvatura que amplia a navegabilidade
do barco contra o vento. Esta solução de emenda provavelmente
é proveniente da escassez de madeiras de porte no litoral arenoso
do Ceará. Curioso é saber que esta mesma técnica,
com os mesmos encaixes e amarrações, é encontrada
ainda hoje em embarcações tradicionais do Mar Vermelho e
da África oriental. Deve-se notar também a “cana de
leme”, rijamente ligada ao eixo, permitindo imediato controle da
embarcação. O frade existente na proa e a cabine baixa reforçam
as linhas particulares do Bote do Ceará. Internamente o bote permite
alojar o mestre, a tripulação e os apetrechos de pesca na
apertada cabine que pode servir também de cozinha. Pelo alçapão
da proa guarda-se o gelo e o pescado. Trata-se de excelente veleiro que
navega sem quilha e praticamente sem lastro pelos mares do nordeste do
Brasil. Suas características estão ligadas ao regime constante
dos ventos da região, permitindo navegações com ventos
folgados de intensidade moderada. Existem entretanto, relatos de catástrofes
envolvendo os botes cearenses em adernagens provocadas por ventos ou vagas
- inesperadas ou anormais. O Rebouças, adquirido na foz do Rio
Ceará, a noroeste de Fortaleza, pescou por toda a região
– do Rio Grande do Norte ao Maranhão, por mais de 40 anos.
Consta que em uma destas viagens, tolhido por violenta tempestade, perdeu
parte de seus tripulantes.
BOTE DO SUL
Origem e distribuição
O Bote do Sul é originário da Lagoa dos Patos, no Rio Grande
do Sul. São Lourenço, Rio Grande e Pelotas são alguns
dos municípios onde os botes atuam e são fabricados. Em
função da facilidade de construção e boa navegabilidade,
os Botes do Sul vem progressivamente substituindo as tradicionais baleeiras
no litoral de Santa Catarina. Primeiro em Laguna e depois na costa leste
de Florianópolis, alguns exemplares já podem ser encontrados
em São Francisco do Sul, quase na divisa com o Paraná. De
uma maneira geral pode-se afirmar que na Ilha de Santa Catarina, os botes
substituem as baleeiras nos locais abrigados, em que podem permanecer
no mar após a pescaria, como em Ingleses e Barra da Lagoa. Como
são muito mais pesados do que as baleeiras, estas são insubstituíveis
em praias de mar aberto, onde devem ser recolhidas freqüentemente
para as praias, como na Armação e no Pântano do Sul,
Garopaba e Pinheira. Em Santa Catarina, os Botes do Sul tornaram-se absolutos
na Barra da Lagoa, em Florianópolis, onde podem ser observados
em ação. Neste local, já se consagraram como um dos
mais belos cartões postais da capital do estado.
Características
A silhueta do Bote do Sul é inconfundível e curiosa: a proa
vertical, muitas vezes à prumo é arrufada. A roda de proa
prolonga-se para o alto, servindo para amarração do cabo
de atracação. A borda é baixa. A popa, pouco alçada
é igual a das canoas. A boca é larga. O fundo pode ser redondo
ou em “vê”. O costado é construído com
tábuas largas e por vezes com chapas de compensados. Nota-se que
o costado abre-se acentuadamente a partir do fundo, ampliando a boca da
embarcação em relação, aumentando a capacidade
de carga e a segurança no mar.
Navegabilidade
A conjunção destes fatores faz dos Botes do Sul embarcações
relativamente baratas, seguras e de ótima capacidade de carga.
Construídas inicialmente para navegar nas lagoas sulinas, hoje
se atrevem nos mares difíceis da barra de Rio Grande, Laguna e
da Ilha de Santa Catarina, onde se adaptaram perfeitamente. Atuam em praticamente
todas as modalidades de pesca artesanal, inclusive na pesca da tainha,
onde as redes são lançadas muito próximas dos costões
rochosos. Nesta oportunidade os botes trabalham quase na arrebentação
das ondas, enfrentando situações extremamente adversas.
Tem-se registrado acidentes nestas situações de risco. Quase
todos os Botes do Sul preservam seus encaixes de mastro, junto à
proa da embarcação, mas é raro que ainda possuam
velas.
Pintura
As linhas das pinturas seguem os contornos das tábuas largas, tornando
os botes menos coloridos do que as canoas bordadas do sul ou as baleeiras
de Santa Catarina. Os botes são tradicionalmente pintados com cores
mais sóbrias, embora não sejam incomuns as tonalidades claras
e vivas. A parte interna é comumente pintada de laranja, muitas
vezes resultante de tintas antiferrugens do tipo zarcão. O vermelho
e o azul claro também são utilizados, proporcionando ótima
visibilidade deste barco quando visto do alto. É usual que o espaço
proporcionado pela proa alteada seja utilizado para pintura de símbolos,
números e sinais característicos. Também é
tradicional que um dos tripulantes coloque-se junto à proa, protegido
do vento e em ótimas condições de visibilidade.
BOTE DE SANTA CATARINA
Origem
Os botes de Santa Catarina, muitas vezes também chamados de bateiras
derivam das baleeiras, embarcações trazidas ao Brasil pelos
imigrantes açorianos e até hoje tradicionais no litoral
catarinense. Quando a sofisticada construção da baleeira
tornou-se demasiadamente onerosa para as possibilidades financeiras dos
pescadores artesanais, estas embarcações foram simplificadas,
originando os barcos hoje denominados de “botes” ou “bateiras”.
Ocorrência:
Derivando das baleeiras, os botes catarinenses ocorrem nos locais em que
foi mais intensa a imigração de açorianos: na Ilha
de Santa Catarina e seus arredores. Significativo núcleo de construtores
estabeleceu-se na pequena localidade de Santa Luzia no município
de Tijucas, produzindo muitos dos botes que hoje percorrem a região.
No sul do Estado os botes tendem a aproximar-se dos modelos produzidos
no Rio Grande do Sul, enquanto que ao norte, já na região
de influência de Itajaí, preponderam os botes de “popa-torada”,
seguindo modelo que se estende além do Rio de Janeiro.
Características:
Os botes catarinenses caracterizam-se pela dupla proa herdada das baleeiras.
Muitas vezes proas e popas se erguem em curvas que as destacam na silhueta
da embarcação. Pode-se afirmar que estes botes resultam
da simplificação construtiva das baleeiras. Enquanto esta
apresenta o casco curvo, com sofisticados cavernames, os botes são
construídos com fundos chatos ou em “vê”, com
conseqüentes facilidades de confecção. Também
a estrutura de cavername é simplificada, resultando que o costado
é construído com tábuas mais largas. Destaque para
o leme, de grandes dimensões em função do arrufo
de popa. Na região de Ganchos é usual a colocação
de pequena cabine próxima da proa, servindo de abrigo para a tripulação.
Denominação
Variam muito as denominações dadas aos diversos tipos de
barcos em Santa Catarina. As tradicionais baleeiras são muitas
vezes chamadas de “lanchas” ou mesmo “lanchas baleeiras”.
Os botes são eventualmente denominads de “bateiras”.
Parece-nos mais correto, entretanto, preservar a denominação
de botes para os barcos de dupla proa derivados das baleeiras, ainda quando
construídos com fundo chato. Neste caso, sugere-se reservar para
“bateira” a designação das pequenas embarcações
de apoio que fazem a ligação dos barcos ancorados com as
praias e são utilizadas em pequenas pescarias nas proximidades
dos núcleos de pescadores.
Cores
Os Botes de Santa Catarina preservam a alegria das baleeiras, sendo usualmente
pintados com diferentes cores vivas, normalmente sobre fundo branco. O
amarelo está quase sempre presente, assim como o “encarnado”
(vermelho). A diferença é que o madeiramento que reveste
o costado é executado com tábuas largas, forçando
a ornamentação a buscar alternativas que não se restrinjam
à pintura com cores diferentes das tábuas que formam os
cascos. Surge assim, uma série de adereços pintados como
que carimbando em série a borda da embarcação, avivando
e conferindo alegria a todo o desenho do barco.
Navegabilidade.
O bote de Santa Catarina é de qualidade náutica inferior
às baleeiras. Não se trata, porém de embarcação
desprovida de recursos náuticos. Sua borda alta, os arrufos de
proa e popa e a boa capacidade de carga permitem-lhes enfrentar mares
usualmente difíceis como os da Baía de Tijucas, na baía
norte da Ilha de Santa Catarina. Por outro lado, o pouco peso e o fundo
chato e pouco profundo desta embarcação praticamente inviabiliza
o uso da vela, inexistindo na maioria dos modelos o encaixe para o mastro,
ainda usual nas baleeiras.
Pesca
Os botes de Santa Catarina prestam-se a todos os tipos de pesca praticados
pela pesca artesanal, em especial a do camarão. Embora possam enfrentar
condições relativamente adversas de mar, a sua atividade
pesqueira normal ocorre no abrigo das baías e nas proximidades
dos estuários, promovendo pescas de arrasto os deixando redes de
espera.
BOTES
ou Botes de Popa Cortada (torada).
Chamados simplesmente de Botes, são encontrados no litoral brasileiro,
em especial no sul e sudeste, uma série de embarcações
de pequenas dimensões-raramente chegando aos 10m de comprimento,
que apresentam variadas proas e popas cortadas em diferentes desenhos.
Estes botes ocorrem desde Laguna até o nordeste. Na altura da Ilha
de Santa Catarina, cedem lugar às baleeiras e aos botes de dupla
proa (popa fechada). Já em Itajaí os botes de popa cortada
preponderam, estendendo sua participação até o sudeste
brasileiro, quando são substituídos pelos saveiros. São
barcos de boca aberta, estruturados em cavernames e motorizados. Alguns
são cabinados e muitos possuem guinchos e pequenos mastros destinados
a abrir as redes de arrasto e facilitar sua retirada do mar. As pinturas
são coloridas. Os botes atuam em lugares tão diferentes
quanto às baías da Babitonga, Paranaguá, Ilha Grande,
Barra do Itajaí, Iguape e Cananéia entre muitas outras localidades
do litoral sul-sudeste. Em Santa Catarina é comum que estas embarcações
atuem em conjunto, varrendo extensa área de pesca. Os botes hoje
em dia são usualmente equipados com rádios de comunicação
tipo PX. Formam assim uma grande rede de informações que
facilita a localização dos cardumes e previne as tripulações
sobre as mudanças meteorológicas. Na localidade da Barra
do Camboriú verificou-se que os estaleiros transformam botes de
dupla proa e baleeiras em “popa-torada”, sob a justificativa
de que seu desempenho é superior, inclusive dificultando que as
redes emaranhem-se nos hélices. Foi somente nesta localidade que
se registrou esta prática. É interessante observar a diversidade
de proas dos botes das regiões sul-sudeste, que variam de rodas
de proa e bochechas quase verticais até formas muito abertas, produzidas
por grandes inclinações de cavername e estruturas mestra.
Algumas destas soluções resultam em belas formas que transmitem
rigidez e segurança. Em Itajaí fabrica-se um bote com estas
características, com a proa desbeiçada cortando com muita
segurança as águas difíceis da barra do maior rio
que deságua no oceano em Santa Catarina. Em Barra Velha nota-se
a existência de um bote rude, construído toscamente e repleto
de ângulos retos. Estes barcos inseguros vêm substituindo
as antigas e belas canoas bordadas que não se renovam em virtude
da proibição dos órgãos ambientalistas de
extração das madeiras com que eram fabricadas.